terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Resenha #34 - Assassinato Na Academia Brasileira de Letras



Autor: Jô Soares
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2005
Páginas: 253
nero: Romance Policial
Resenha por: Mayara

Sinopse:
      Durante seu discurso de posse, o senador Belizário Bezerra, o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras, cai fulminado no salão do Petit Trianon. A morte de outro confrade, em circunstâncias semelhantes - súbita, sem sangue e sem violência aparente -, traz uma tensão inusitada para a tradicionalmente plácida casa de Machado de Assis: um serial killer literário parecia solto pelo pacato Rio de Janeiro de 1924, e não estava pra brincadeira. Queria ver mortos todos os imortais.
Os 'Crimes do Penacho', como a imprensa marrom apelidou a série de assassinatos, despertaram a curiosidade do comissário Machado Machado, um tipo comum na paisagem carioca não fosse o indefectível chapéu-palheta, a pinta de sedutor irresistível e a obstinação em provar que aquelas mortes jamais poderiam ser coincidências.
     Em sua investigação, que serpenteia entre um chope e outro no Café Lamas, uma visita ao teatro São José, uma passada no cemitério São João Batista e outra na Lapa, Machado Machado encontra suspeitos por toda parte: políticos, jornalistas, religiosos, nobres falidos, embaixadores, crupiês, poetas maiores e menores, homens de letras, magnatas da imprensa, alfaiates e atrizes francesas, quase todos com um pendor inescapável para o assanhamento e a malandragem.





Nota:
5/5




Olá amadinhos,

A resenha de hoje é uma Super dica de um bom Livro Nacional *-------*
 
     Jô Soares, além de ser um excelente apresentador mostra-se um exímio autor de romances policiais misturando o suspense, com um humor bem ácido e tórridos romances pelos cenários de um Rio de Janeiro dos anos 20.





"Ninguém como as manicures para conhecer todas as futricas de uma cidade. Enquanto cortavam peles e cutículas, as moças nem se davam conta quando lhe passavam informações valiosas. Às vezes, aquelas alegres meninas tagarelas eram-lhe mais úteis que os alcaguetes das delegacias" (pág. 28)




     O livro segue o comissário da polícia Machado Machado (nome este dado por seu pai Rubino Machado em homenagem ao escritor Machado de Assis – ô admiração hein! ^^ ), um tipo comum na paisagem carioca daquela época, que entre um chope e outro realiza suas investigações.

     Nosso comissário, com seu porte jovial e sedutor ("moreno alto, bonito e sensual..."), usa-se de sua lendária obstinação e de uma paciência quase patológica para conseguir o que deseja: desde os golpes perfeitos na esgrima, às inúmeras mulheres que se encantavam com seu jeito intrigante e perturbador, ou mesmo a resolução de casos que aparentemente não se interligam ou não possuem solução.

     E ao se deparar com as mortes de dois acadêmicos por ataque cardíaco, seu instinto de investigador entra em alerta, indo na contramão de seus colegas que acreditavam que os casos fossem uma infeliz coincidência (ai, ai, e ainda se dizem investigadores ¬ ¬ ).





"Despediu-se do amigo em silencio. Logo teria que prestar contas ao chefe confirmando seus piores receios. ‘Imortais assassinados’, pensou. Como nos livros" (pág. 36)



     A partir daí inicia-se uma grande investigação dos assassinatos, permeando em meio a mistérios, vingança e intrigas. O mais fascinante desta situação é a habilidade com que o autor nos leva a acreditar que de fato aqueles crimes são reais, e que seus inúmeros personagens, ao longo do livro, existem de verdade!

     O leitor se sente transportado para o cenário de um Rio de Janeiro de 1920 através das inúmeras referencias cotidianas daquela época, que estão espalhadas pelas páginas do livro, seja por meio de fotos de publicações de jornais (com direito a ter a ortografia de certas palavras ajustadas para a época – ex: Theatro, Pharmácia...), ou de cartazes de espetáculos de Teatro (estreladas por artistas nacionais e internacionais, como divas francesas *-----*), referências musicais e gastronômicas, além de descrições minuciosas e realistas dos bairros e locais mais frequentados nos anos 20, onde podemos observar os costumes da época pelo modo de pensar, falar, de se vestir, as atividades de lazer predominantes no país no início do século XX (O que dizer da forte comparação que reinava naquele período histórico, onde as atrizes se equivaliam a prostitutas?).





"Apesar do empenho de vários artistas e intelectuais, a lei continuava igual. O Coruja considerava essa qualificação absurda" (pág. 44)



     Tudo isso, brilhantemente escrito, nos leva, enquanto leitores, a pensar estar acompanhando ali de pertinho os casos de assassinatos e suas investigações realizadas pelo comissário Machado Machado. A narração, na maior parte, acompanha nosso fascinante protagonista (conhecido entre os policiais como o Coruja), mostrando os desdobramentos de sua investigação (desde seus luxuriantes interrogatórios de belas mulheres, até as inusitadas perseguições em busca do assassino), porém, há passagens nas quais podemos observar o lado do misterioso algoz dos imortais da Academia Brasileira de Letras (revelando seus planos e seus tenebrosos e calculistas métodos); sempre acompanhado de ilustrações históricas, visuais e sonoras (sim, há muitas referencias de personagens históricos, de músicas da época, além é claro de livros e poesias, afinal estamos lidando com importantes escritores, imortais da Academia <3).





"Machado deu por encerrado o interrogatório. Beijou a embaixatriz, sorvendo-lhe os lábios úmidos e macios, enquanto fazia deslizar o cetim do vestido. Manuela retribuía, a língua quente provocando-lhe o desejo, nessa altura, incontrolável. Não usava nada por baixo" (pág. 86)



"Como carioca legítimo, Machado recusava-se a visitar os pontos de atração turística da cidade. Não fosse por razão do ofício, é provável que jamais conheceria a estrada de ferro, inaugurada por D. Pedro II, que ligava o Cosme Velho ao Corcovado, passando pelas Paineiras. Primeira ferrovia a ser eletrificada no Brasil, seu trem era o mais moderno meio de acesso ao Hotel das Paineiras, destino de Lauriano Lamaison" (pág. 138)



     Com uma escrita fluida Jô Soares vai construindo personagens caricatos, carismáticos e tão ricos que chega a ser difícil não se encantar com a cada nova figura que aparece ao longo do livro. O próprio Comissário Machado Machado, é de uma natureza taciturna, cujo amor pelos livros e pela boemia característica dos anos 20, em nada diminui seu refinado instinto policial (digno de comparação com Sherlock Holmes e Mr. Poirot).

     Uma trama bem armada e desenvolvida com a maestria de grandes autores, nos envolvendo a cada página com o desenrolar dos acontecimentos, e assim, nos viciamos com o humor irônico e ácido dos personagens, com o erotismo das relações amorosas do galante policial, com sua dedução aguçada para resolução de mistérios e é claro em busca de resolver o mistério final: Quem é o autor de tais crimes? Haverá outros? E por que eles estão acontecendo logo com os imortais brasileiros? Conseguirá nosso herói, por fim, chegar a solução desses crimes?

     E é com essa receita certeira de um bom romance policial que devoramos o livro em pouco tempo e ficamos sentindo falta dos personagens e do Rio de Janeiro dos anos 20. Para quem gosta de grandes mistérios, e para quem curte ou procura conhecer mais obras nacionais, esse é um excelente pedido!

Espero que tenham gostado da dica da semana meus queridos, nos vemos na próxima.

XOXO

Mayara >.<



 

 



 

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